1 de jan de 2012

O Rosário dos Arturos / S-VHS / 5 minutos / 1999

Clique AQUI para ver o vídeo.


Já em 1994, travei conhecimento com o trabalho desenvolvido pelos professores Edmilson e Núbia Pereira (do curso de letras da UFJF) junto à comunidade dos Arturos, na cidade de Contagem (MG). Os Arturos são descendentes (filhos, netos e bisnetos) do negro Artur, e herdaram do pai a tradição do congado, muito ligada a festa de Nossa Senhora do Rosário, que acontece em outubro. Em torno desta cerimônia festiva e religiosa, ainda extremamente viva e intensa, os Arturos sedimentaram a união e a identidade de seu grupo familiar, preservando a ligação com o sagrado e a memória dos antepassados.

Eu vinha nesta época desenvolvendo um interesse pela documentação em vídeo de manifestações folclóricas, aqui mesmo na Zona da Mata. Só em 1997, não me lembro bem por que, resolvi procurar o Professor Edimilson e propor a realização de um documentário sobre os Arturos, em Contagem.

Já sem o aporte técnico da Faculdade de Comunicação (eu me formei no fim de 1996), tive dificuldade em conseguir equipamento para a captação das imagens, o que quase inviabilizou a realização do trabalho no tempo em que desejávamos. Quem me socorreu com o empréstimo de uma câmera S-VHS foi a então colega e hoje jornalista Érica Salazar (e talvez ela nem se lembre deste fato que na ocasião foi de extrema importância).

Viajei com Edimilson para Contagem em duas ocasiões: outubro de 1997, para a festa de Nossa Senhora do Rosário, e maio de 1998, para a festa da libertação, quando então eu próprio já possuía uma câmera de S VHS. Ficamos hospedados na casa em que viveu Artur e onde na ocasião viviam as duas filhas ainda solteiras, Tita e Induca. Fiquei fortemente impressionado e emocionado com a beleza dos rituais, especialmente na festa de outubro, mais reservada aos membros da comunidade e seu círculo de amigos. Tambores, bandeiras, bênçãos, cantos e danças entram pela noite, são retomadas pela madrugada e seguem por todo dia seguinte. Já na festa de maio, uma celebração da abolição da escravatura, a comunidade recebe uma multidão de visitantes de várias regiões de Minas e do Brasil e a celebração adquire um caráter mais oficial, de espetáculo.

Nestas duas ocasiões colhi seis horas de imagens e o depoimento de todos os nove filhos de Artur ainda vivos. A partir deste material editei uma primeira versão do vídeo, com 17 minutos, em linguagem audiovisual convencional e um texto de narração escrito pelo Professor Edimilson. Este vídeo, embora mais completo e informativo, não funcionou muito bem (minha prima dormiu antes dos dez minutos iniciais, quando exibi para ela) e me fez perceber minha própria inapetência e incompetência para a construção de narrativas lineares.

Meses depois, não me lembro de onde, surgiu a ideia de reorganizar as imagens já editadas sob uma nova estrutura, em forma de mandala (um símbolo religioso, onde diversos elementos estão ligados a um centro comum), na qual as imagens sacras e os instrumentos rituais funcionariam como elementos catalizadores. Daí surgiu este fluxo de imagens cíclico e simultâneo, que expressa na forma a própria essência do conteúdo, resumido pelo Edimilson no seu texto de narração, contido na primeira versão: “Os Arturos são um rosário, unidos em família pelo sagrado e pela vida em comunidade”.

Nesta segunda versão, com 5 minutos, o vídeo participou de uns 10 festivais nacionais, foi exibido no programa ZOOM da Cultura e recebeu o prêmio de melhor vídeo experimental na 3ª Mostra de Vídeo do MIS de São Paulo.

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