1 de jan de 2012

A Luz Fragmentária de Olavo / S-VHS / 5 minutos / 2000

Clique AQUI para ver o vídeo.

Não lembro quando nem por que meio fiquei sabendo que a primeira transmissão experimental de TV no Brasil foi feita em Juiz de Fora, ainda na década 40. Um jogo do Tupi foi transmitido do estádio em Santa Terezinha para um monitor localizado em um bar da Praça da Estação.

Um diálogo teria sido travado entre o cineasta João Carriço, que filmava o jogo em película 35mm para que fosse exibido em seu cinema dias depois, e o responsável pela transmissão de TV, Olavo Bastos Freire. Carriço ficou impressionado com a nova tecnologia e teria sentenciado a morte do cinema: "se as pessoas já estão vendo o acontecimento agora, ao vivo e a distância, não faz mais sentido filmarmos algo para que seja visto depois". E Olavo rebateu, de forma mais lúcida: "não acredito que o cinema morrerá por causa da TV, uma coisa vai complementar e ajudar a outra".

Imaginei inicialmente fazer um curta de ficção reproduzindo este diálogo (fica aqui a ideia para quem quiser realizar). Como este seria um projeto caro, outro projeto mais modesto se interpôs, como quase sempre acontece. Em 2000, por ocasião dos 50 anos da TV comercial no Brasil (a TV Tupi foi inaugurada em 1950) resolvi procurar o Sr. Olavo Bastos Freire, então com 84 anos, e realizar um documentário em vídeo com o seu depoimento. Seria ao mesmo tempo uma homenagem a ele, à tecnologia da TV e um registro histórico.

Peguei minha câmera S-VHS e chamei o Marquinho Pimentel para me ajudar na produção. Fomos recebidos pelo Sr. Olavo num apartamento de dois quartos que ele mantinha exclusivamente para guardar seus equipamentos e uma imensa biblioteca de física e eletrônica. Senti como se estivesse entrando no laboratório de um daqueles cientistas dos filmes de ficção científica da década de 40, tipo o Dr. Brow do filme De Volta Para o Futuro.

Colhemos um depoimento de 2 horas. O Sr. Olavo falou de sua trajetória, explicou o princípio do funcionamento da TV e mostrou diversas de suas "invenções", entre elas um imenso gerador de caracteres primitivo, parecido com as canetas digitais da atualidade, que ele denominou de "escritoscópio". Havia em seu "laboratório", além da câmera e do monitor que ele utilizou na transmissão de TV, ambos ainda em funcionamento, uma série de equipamentos que demonstravam praticamente todas as etapas da evolução da tecnologia da TV. Logo pensei que Juiz de Fora poderia ter um MUSEU DA TV, único do Brasil. Sr. Olavo se predispôs a doar os equipamentos para algum órgão público que cuidasse deste projeto. Sugeri isto para a FUNALFA, dias depois. Como se vê, até hoje ninguém gostou da ideia. Após a morte do Sr. Olavo, alguns destes equipamentos foram parar na FUNALFA, não sei como, e até onde sei continuam por lá, guardados...

Com este material de duas horas em mãos (que ainda guardo em meus arquivos) imaginei editar um vídeo de poucos minutos, e para isso eu deveria determinar um recorte temático. Optei por colocar em evidência as reflexões do Sr. Olavo sobre a natureza do funcionamento da TV, algo que parecia fasciná-lo: a decomposição e recomposição da luz, uma espécie de luz fragmentária ou alquimia eletrônica (a alquimia também se fundamenta na decomposição e recomposição dos elementos químicos, até se obtenha o ouro, ou a pedra filosofal, que no caso da TV seria a própria imagem materializada, mesmo que forma fugaz, na tela).

Assim me distanciei um pouco do registro histórico documental, para me aproximar de algo mais subjetivo e, em certos momentos, lírico. Neste vídeo está uma das imagens mais legais, no meu ponto de vista, de todo o meu trabalho com vídeo: o momento em que Sr. Olavo pega uma pequena câmera de vídeo que entreguei a ele e filma seu laboratório. Por um breve momento ele aponta a camêra na minha direção e há o encontro entre duas imagens, a minha captada por ele e a dele captada por mim. A duas imagens, na edição final, aparecem simultaneamente na tela.

Ainda em 2000, o vídeo recebeu uma Menção Honrosa no 5º Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba, foi exibido em alguns outros festivais nacionais e no programa ZOOM da TV Cultura. O Sr. Olavo Bastos Freire veio a falecer alguns anos depois.

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