29 de dez de 2011

Madalena, Flores de Plástico, Coração de Fogo / S-VHS e super 8mm / 3 minutos / 1997

Clique AQUI para ver o vídeo. Em 1996, quando cursava a graduação em Rádio e TV na UFJF, eu era monitor de edição e cinegrafia no estúdio de TV da faculdade. Descobri dois velhos projetores de 8mm e 16mm abandonados num depósito de equipamentos em desuso. Para nossa surpresa, ambos funcionavam perfeitamente. Resgatei um pequeno filme de super 8mm que eu havia realizado 10 anos antes e passei a fazer experiências visuais com a projeção do filme e o tratamento eletrônico das imagens na ilha de edição de vídeo, ainda analógica. Destas experiências resultou o vídeo A CIDADE SECA, como relatei no post anterior. Uma colega da faculdade, ao ver meu trabalho com o super 8mm, me disse que seu tio, chamado Nilo César, havia feito uma série de pequenos filmes em 8mm na década de 80, pelas ruas de Juiz de Fora. Com a anuência do tio, ela trouxe para mim os filmes, para que eu os utilizasse no trabalho que então desenvolvia. Fiquei particularmente impressionado com as imagens da Banda Daki, um imenso bloco carnavalesco que desfila pela Av. Rio Branco no sábado de carnaval (e do qual eu participo religiosamente, todos os anos, desde 1995). Uma particularidade desta banda, naquela época, era a grande quantidade de homens vestidos de mulher, o que se evidencia nas imagens. Lembrei de uma das músicas que o Sr. Antônio Felício executou em sua viola na Rua Halfeld, um ano antes, para que eu utilizasse no vídeo RAPSÓDIA DO PASSEIO PÚBLICO: "Coração de Luto, de Texeirinha". A viola de Sr. Antônio conferia à música uma solenidade ao mesmo tempo soturna e virulenta, quase épica, eu diria. A tragédia do menino de nove anos que perde a mãe queimada viva num incêndio ganhava mais dramaticidade naqueles acordes meio dissonantes (talvez desafinados mesmo)e no olhar cheio de dignidade, ou de serena tristeza, do Sr. Antônio. Pensando na ideia psicanalítica bastante difundida de que os homossexuais masculinos mantém uma ligação afetiva particularmente intensa com suas mães, chegando às vezes a se identificar completamente com a imagem feminina, criei a história de um gay transformista que abandona sua pequena cidade natal ao perder tragicamente a mãe, e ganha os palcos do país em espetáculos, festas e eventos. O êxtase e o glamour carnavalesco no ambiente urbano, com gays, travestis e homens com vestidos e acessórios femininos, evidentes nas imagens de Nilo César, criam o pano de fundo para o desenrolar do texto, em contraponto ao velho violeiro, que encarna a figura quase lendária do contador de histórias do interior. Mesclando referências culturais diversas, radicalizei a superposição de textos e imagens de vários formatos (super 8mm e super VHS) através de fusões e janelas (inspiradas nos trabalhos então recentes de Sandra Kogut), embora o equipamento disponível na faculdade e na produtora em que eu estagiava na época limitasse em muito tais procedimentos. O vídeo participou de vinte festivais nacionais entre 1997 e 1999, e recebeu dois prêmios: Melhor vídeo na 13º Mostra de Vídeo de Santo André e Melhor vídeo experimental no 13º Rio Cine Festival. Foi também exibido nos programas Primeiro Plano e Zoom, da TVE e da TV Cultura.

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