29 de dez de 2011

A Cidade Seca / S-VHS e super 8mm / 5 minutos / 1997

Clique AQUI para ver o vídeo. Aos 13 anos, em 1986, consegui convencer meu pai a me dar uma câmera de Super 8mm, contrariando todas as opiniões ao redor. O VHS começava a se popularizar e o Super 8 já era considerado um formato em extinção. Comprei assim uma câmera e um projetor usados e ganhei de brinde dois filmes virgens. Com estes filmes (dois rolos de 3 minutos) filmei cenas do cotidiano de Chácara, onde eu morava na época. O campo de futebol no domingo, quintais com galinhas e porcos, meninos jogando bola na praça, pescando e nadando num riacho, uma tempestade, bois pelas estradas de terra, etc. A ideia inicial era filmar uma pequena ficção, usando parentes e colegas como atores, mas minha atração voyerista em percorrer o "olhar vagabundo" sobre as coisas do mundo me levou a filmar um pequeno documentário contemplativo, que já trazia a previsão de alguns efeitos de montagem inusitados (uma espécie de HOMEM COM A CÂMERA rural). Mandei revelar o filme. Dias depois, quando recebo os rolos revelados, descubro que a luz do projetor estava queimada. Não consegui na época quem consertasse a máquina. Resultado: não pude ver o filme projetado. Decepcionado, mas conformado, guardei os rolos e segui trabalhando com vídeo na produtora do meu primo Robson. Anos mais tarde, em 1996, já no curso de Comunicação da UFJF, eu era monitor de edição e cinegrafia no Estúdio de TV. Encontrei numa sala de depósito um velho projetor de Super 8mm, ainda funcionando perfeitamente. Pensei: é minha chance de ver o filme. Só consegui achar um dos dois rolinhos. Me emocionei bastante vendo aquelas imagens feitas 10 anos antes. Eu já realizava na época algumas experiências com edição e manipulação de imagens videográficas, e estudava com bastante interesse as relações que então se desenhavam entre o cinema tradicional e as novas tecnologias eletrônicas. Selecionei algumas imagens em vídeo, feitas por mim nas ruas de Juiz de Fora para um clipe da banda Eminência Parda, e mesclei com as velhas imagens de Super 8mm, usando os efeitos de sobreposição e recorte de uma ilha de edição ainda analógica. O efeito visual plástico me surpreendeu. Além disso, o contraste de texturas e a mistura de imagens rurais e urbanas me suscitavam uma série de reflexões, sobre o trabalho com o audiovisual e sobre a relação que eu mantinha com minha cidade de origem (Chácara) e com a cidade que posteriormente escolhi para viver (Juiz de Fora). Meus colegas viram ainda neste trabalho uma crítica velada ao aspecto provinciano de Juiz de Fora, que sempre sustentou aspirações cosmopolitas (tema de nossos debates em torno da ideia de uma "mutrópole"). Pedi uma trilha sonora ao Paulo Beto, com sons eletrônicos articulados a sons de instrumentos tradicionalmente rurais. Sem texto e com esta trilha, o vídeo participou, em 1997 e 1998, de uns 10 festivais nacionais importantes, além de ser exibido em dois programas da TVE e da TV Cultura. Ainda assim, sempre senti a necessidade de explicitar as reflexões instigadas por este trabalho. Em 2002, re-editei o vídeo inserindo os textos que ele tem agora.

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